por Beto Pacheco
Imagine a cena:
Ned Flanders abre a porta e avisa:
- Rod, Todd, sabem onde vamos passar o fim de semanazinha?
- Onde, papai?
- Na NoéLândia!
- Eba!
E as crianças pegam suas camisetas com dizeres “100% Criacionismo”, seus jogos de “Super Trunfo Cristão” e “Bíblia e Ação”, um punhado de maná para o lanchinho da tarde, e partem felizes rumo ao paraíso na Terra.
Aliás, essa seria uma ideia interessante para um roteiro de Matt Groening (se é que ele já não produziu tal e eu não vi) se não fosse verdade. A notícia é: grupo religioso dos Estados Unidos pretende construir um parque temático bíblico estrelado por uma grande Arca de Noé em tamanho “real” (o real fica a cargo de cada um).
Segundo o portal G1, o parque foi Idealizado pelo “Answers in Genesis” – um ministério cristão fundado pelo criacionista Ken Ham – e se chamará “Ark Encounter” (Encontro da Arca). Contudo, apesar de estar previsto para ser inaugurado na primavera de 2014, no estado do Kentucky, o projeto ainda não saiu do papel (Aleluia!).
E não saiu do papel porque até agora não foram arrecadadas doações privadas suficientes para iniciar a construção. De acordo com o cofundador e vice-presidente do parque, Michael Zovath, o projeto já tem US$ 12,3 milhões (mais de R$ 26 milhões) em mãos e outros US$ 12,7 milhões (mais de R$ 27 milhões) em doações previstas, mas faltam mais US$ 23 milhões (quase R$ 50 milhões) para que possa ser iniciada a construção da arca. O parque completo está orçado em US$ 150 milhões (cerca de R$ 321 milhões), o que nos leva a crer que Noé, o Primeiro, mesmo sendo apadrinhado pelo Todo Poderoso, deve ter raspado o cofrinho para financiar a versão original.
Além da arca de 150 metros de comprimento, o parque prevê outras atrações ligadas ao Antigo Testamento, incluindo a Torre de Babel e um brinquedo temático das 10 Pragas do Egito.
Pausa para reflexão… Brinquedo das 10 Pragas do Egito? Diversão garantida! Aliás, o leitor sabe quais são? Pois vamos a elas (fonte: Bíblia; imagino que seja confiável), e imaginemos como seria o tal passatempo:
1) Água em sangue (Êx. 7:14-24) – A primeira praga, a transformação do Nilo e de todas as águas do Egito em sangue, causou pânico e a morte dos peixes.
2) Rãs (Êx. 8:1-15) – Pipocou chuva de rã em todos os cantos do Egito. Menos na cabeça dos “Filhos de Israel”.
3) Piolhos – (Êx. 8:16-19) –O Egito foi infestado por piolhos, que encobriram toda a população e todos os animais. Haja vinagre!
4) Moscas (Êx. 8:20-32)- A quarta praga deixou o Egito infestado de moscas. O Faraó concordou em libertar o povo e o Senhor retirou a praga, mas, assim que percebeu que a praga havia cessado, o faraó voltou atrás em sua decisão (Malandrovski!), aprisionando o povo hebreu.
5) Peste sobre bois e vacas (Êx. 9:1-7) – A praga seguinte, a pestilência no gado, afligiu todo o gado do Egito. Foi mortandade geral, mas nenhum boizinho de Israel foi acometido do mesmo mal.
6) Feridas sobre os egípcios (Êx. 9:8-12) – Deus nesta praga mandou Moisés jogar cinzas ao vento, que se espalharam por sobre todo o povo do Egito e seus animais, cobrindo-os de tumores ulcerosos na pele. Gentil o sr. Deus.
7) Chuva de pedras (Êx. 9:13-35) – Deus mandou uma saraivada de pedras que destruiu todas as plantações. Exceto, é evidente, as da região onde estavam os “escolhidos”.
8) Gafanhotos (Êx. 10:1-20) – Foi gafanhoto pra todo lado e as colheitas do faraó, mais uma vez, viraram história.
9) Trevas (Êx. 10:21-23) ou em caixa alta: TREVAS! (Assim ficou melhor) – Dessa vez, para provar que podia mais que o deus sol, Rá (ieié, salsifufu), o Senhor bateu o dedo no interruptor e todo o céu do Egito se tornou breu por dias. Menos onde? Hein? Hein? Onde estavam os filhos de Israel, é claro.
10) E, finalmente, aquela que será a melhor parte do brinquedo do parque temático: a Morte de todos os primogênitos (Êx. 11-12) – Nesta, todos os filhos mais velhos foram mortos, desde os animais até os servos; inclusive, o filho do próprio faraó.
E ao descer do brinquedo, Ned, Todd e Rod se regozijaram!
Quer dizer, só o Ned e o Todd, pois o Rod era o primogênito.
Aliás, imagine, minha senhora, meu senhor, vocês levando seus filhos à NoéLândia e dê-lhe mar de sangue, e mosca, e gafanhoto, e peste, tumores, pedrada, rãs, piolhos, trevas e, por fim, a família volta para casa com o carro mais leve, faltando o mais velho do rebanho.
Voltando ao incrível parque, sua arca e Túnel do Terror das 10 pragas, Zovath, o Criador (do parque), ainda não sabe quando será possível construí-lo (Aleluia!). Isso porque o projeto ganhou o direito a um abatimento de até 25% do seu valor em impostos, como parte de uma medida de incentivo ao turismo do Kentucky, mas esse direito expira em maio de 2014. E eu que achava que só no Brasil é que havia dessas peripécias.
Bom, mas apesar dessa incerteza, os planos de construir o “Ark Encounter” continuam (será ele a 11ª praga?). E é bem provável que se obtenha êxito nesta empreitada, afinal, o “Answers in Genesis” é experiente em produzir tais exemplos. Para se ter uma ideia, eles também são responsáveis pela idealização do Museu da Criação, na cidade de Petersburg. O museu, que foi muito criticado por educadores e cientistas, argumenta que a Terra tem cerca de 6 mil anos de idade e foi criada por Deus em seis dias de 24 horas, com dinossauros existindo ao mesmo tempo que humanos.
“Me tirem o tubo!”, diria o Jô-neral.
Ora, se a Terra foi criada há 6 mil anos, o jequitibá-rei do seu Zé Inocêncio assistiu a tudo. E aquele facão (lembra?) foi usado pra sacar a costela do pobre do Adão. Aliás, certeza que o Fagundes é Deus. Ou ele ou o Morgan Freeman.
Bom, as tais máximas apresentadas no Museu da Criação vão de encontro ao consenso científico, que afirma que o planeta foi formado 4,5 bilhões de anos atrás. Porém, não adianta provar isso com fóssil, telescópio espacial, cálculo matemático e o escambau, pois a turma do Zovath rejeita a Teoria da Evolução e explica fenômenos como o Grand Canyon como uma consequência do dilúvio. Dizer mais o quê?
Ainda sobre o parque temático, Patrick Marsh, diretor de design do empreendimento, diz que a ideia é apresentar o que a Bíblia tem a dizer e mostrar o quão plausível ela é. “Isso foi uma parte real da história. Não é apenas uma lenda”, afirma.
Plausível e real… Então tá!
Apesar de ser plausível e de não ser uma lenda, a Bíblia não traz o manual de construção da arca, portanto, na hora de desenhá-la, foi preciso especular. Por isso, a réplica da arca real (?) do parque será feita com uma mistura de madeiras diferentes.
Outra grande questão é como Noé conseguiu fazer caber casais de todos os animais da Terra em um barco com metade do tamanho de um transatlântico de cruzeiro atual. Pois bem, peguem suas calculadoras, e científicas.
Cientistas já catalogaram 1,3 milhão de espécies de animais, mas os idealizadores do “Ark Encounter” calculam que Noé pode ter abrigado de mil a 2 mil pares para representar todos os “tipos” de animal, como a Bíblia coloca. Ah bom, aí sim.
Sobre animais grandes como os dinossauros, Marsh diz que Noé pode ter levado filhotes ou ovos, para economizar espaço. Imagina que bonitinhos os filhotes de T-Rex, famintos, rosnando, mastigando as vigas da arca até que, para saciá-los, Noé dá a eles de jantar o macho de uma espécie qualquer que, convenhamos, não faria nenhuma falta. Até hoje não se sabe qual foi a iguaria sacrificada.
O designer Marsh – anotem este nome – também quer mostrar como os dejetos dos animais podem ter sido jogados fora da arca por meio de sistemas mecânicos e como a entrada de ar fresco nela pode ter sido mantida. Conseguem ouvir as harpas e o cântico?
Apesar de o objetivo do parque ser ensinar que a história de Noé foi verdadeira, o empreendimento também tem fins de lucro (estou estupefato!) e se inspira em parques temáticos não religiosos. Na exposição sobre a sociedade pré-dilúvio que Deus queria destruir, por exemplo, o plano é ter um templo com cerimônias pagãs representadas ao estilo “Disney”, diz o messiânico design. “Queremos que todos se divirtam, comprem souvenirs e passem um ótimo momento aqui”, finaliza Marsh.
Ou seja, no fim das “cerimônias” vão tacar rios de sangue e pragas em cima dos espectadores. Vai ser show!
Publicado originalmente no Literatortura











