13 de junho de 2013

A NoéLândia e o Túnel do Terror das 10 Pragas


por Beto Pacheco

Imagine a cena:
Ned Flanders abre a porta e avisa:
- Rod, Todd, sabem onde vamos passar o fim de semanazinha?
- Onde, papai?
- Na NoéLândia!
- Eba!

E as crianças pegam suas camisetas com dizeres “100% Criacionismo”, seus jogos de “Super Trunfo Cristão” e “Bíblia e Ação”, um punhado de maná para o lanchinho da tarde, e partem felizes rumo ao paraíso na Terra.

Aliás, essa seria uma ideia interessante para um roteiro de Matt Groening (se é que ele já não produziu tal e eu não vi) se não fosse verdade. A notícia é: grupo religioso dos Estados Unidos pretende construir um parque temático bíblico estrelado por uma grande Arca de Noé em tamanho “real” (o real fica a cargo de cada um).

Segundo o portal G1, o parque foi Idealizado pelo “Answers in Genesis” – um ministério cristão fundado pelo criacionista Ken Ham – e se chamará “Ark Encounter” (Encontro da Arca). Contudo, apesar de estar previsto para ser inaugurado na primavera de 2014, no estado do Kentucky, o projeto ainda não saiu do papel (Aleluia!).

E não saiu do papel porque até agora não foram arrecadadas doações privadas suficientes para iniciar a construção. De acordo com o cofundador e vice-presidente do parque, Michael Zovath, o projeto já tem US$ 12,3 milhões (mais de R$ 26 milhões) em mãos e outros US$ 12,7 milhões (mais de R$ 27 milhões) em doações previstas, mas faltam mais US$ 23 milhões (quase R$ 50 milhões) para que possa ser iniciada a construção da arca. O parque completo está orçado em US$ 150 milhões (cerca de R$ 321 milhões), o que nos leva a crer que Noé, o Primeiro, mesmo sendo apadrinhado pelo Todo Poderoso, deve ter raspado o cofrinho para financiar a versão original.

Além da arca de 150 metros de comprimento, o parque prevê outras atrações ligadas ao Antigo Testamento, incluindo a Torre de Babel e um brinquedo temático das 10 Pragas do Egito.

Pausa para reflexão… Brinquedo das 10 Pragas do Egito? Diversão garantida! Aliás, o leitor sabe quais são? Pois vamos a elas (fonte: Bíblia; imagino que seja confiável), e imaginemos como seria o tal passatempo:

1) Água em sangue (Êx. 7:14-24) – A primeira praga, a transformação do Nilo e de todas as águas do Egito em sangue, causou pânico e a morte dos peixes.
2) Rãs (Êx. 8:1-15) – Pipocou chuva de rã em todos os cantos do Egito. Menos na cabeça dos “Filhos de Israel”.
3) Piolhos – (Êx. 8:16-19) –O Egito foi infestado por piolhos, que encobriram toda a população e todos os animais. Haja vinagre!
4) Moscas (Êx. 8:20-32)- A quarta praga deixou o Egito infestado de moscas. O Faraó concordou em libertar o povo e o Senhor retirou a praga, mas, assim que percebeu que a praga havia cessado, o faraó voltou atrás em sua decisão (Malandrovski!), aprisionando o povo hebreu.
5) Peste sobre bois e vacas (Êx. 9:1-7) – A praga seguinte, a pestilência no gado, afligiu todo o gado do Egito. Foi mortandade geral, mas nenhum boizinho de Israel foi acometido do mesmo mal.
6) Feridas sobre os egípcios (Êx. 9:8-12) – Deus nesta praga mandou Moisés jogar cinzas ao vento, que se espalharam por sobre todo o povo do Egito e seus animais, cobrindo-os de tumores ulcerosos na pele. Gentil o sr. Deus.
7) Chuva de pedras (Êx. 9:13-35) – Deus mandou uma saraivada de pedras que destruiu todas as plantações. Exceto, é evidente, as da região onde estavam os “escolhidos”.
8) Gafanhotos (Êx. 10:1-20) – Foi gafanhoto pra todo lado e as colheitas do faraó, mais uma vez, viraram história.
9) Trevas (Êx. 10:21-23) ou em caixa alta: TREVAS! (Assim ficou melhor) – Dessa vez, para provar que podia mais que o deus sol, Rá (ieié, salsifufu), o Senhor bateu o dedo no interruptor e todo o céu do Egito se tornou breu por dias. Menos onde? Hein? Hein? Onde estavam os filhos de Israel, é claro.
10) E, finalmente, aquela que será a melhor parte do brinquedo do parque temático: a Morte de todos os primogênitos (Êx. 11-12) – Nesta, todos os filhos mais velhos foram mortos, desde os animais até os servos; inclusive, o filho do próprio faraó.

E ao descer do brinquedo, Ned, Todd e Rod se regozijaram!

Quer dizer, só o Ned e o Todd, pois o Rod era o primogênito.

Aliás, imagine, minha senhora, meu senhor, vocês levando seus filhos à NoéLândia e dê-lhe mar de sangue, e mosca, e gafanhoto, e peste, tumores, pedrada, rãs, piolhos, trevas e, por fim, a família volta para casa com o carro mais leve, faltando o mais velho do rebanho.

Voltando ao incrível parque, sua arca e Túnel do Terror das 10 pragas, Zovath, o Criador (do parque), ainda não sabe quando será possível construí-lo (Aleluia!). Isso porque o projeto ganhou o direito a um abatimento de até 25% do seu valor em impostos, como parte de uma medida de incentivo ao turismo do Kentucky, mas esse direito expira em maio de 2014. E eu que achava que só no Brasil é que havia dessas peripécias.

Bom, mas apesar dessa incerteza, os planos de construir o “Ark Encounter” continuam (será ele a 11ª praga?). E é bem provável que se obtenha êxito nesta empreitada, afinal, o “Answers in Genesis” é experiente em produzir tais exemplos. Para se ter uma ideia, eles também são responsáveis pela idealização do Museu da Criação, na cidade de Petersburg. O museu, que foi muito criticado por educadores e cientistas, argumenta que a Terra tem cerca de 6 mil anos de idade e foi criada por Deus em seis dias de 24 horas, com dinossauros existindo ao mesmo tempo que humanos.

“Me tirem o tubo!”, diria o Jô-neral.

Ora, se a Terra foi criada há 6 mil anos, o jequitibá-rei do seu Zé Inocêncio assistiu a tudo. E aquele facão (lembra?) foi usado pra sacar a costela do pobre do Adão. Aliás, certeza que o Fagundes é Deus. Ou ele ou o Morgan Freeman.

Bom, as tais máximas apresentadas no Museu da Criação vão de encontro ao consenso científico, que afirma que o planeta foi formado 4,5 bilhões de anos atrás. Porém, não adianta provar isso com fóssil, telescópio espacial, cálculo matemático e o escambau, pois a turma do Zovath rejeita a Teoria da Evolução e explica fenômenos como o Grand Canyon como uma consequência do dilúvio. Dizer mais o quê?

Ainda sobre o parque temático, Patrick Marsh, diretor de design do empreendimento, diz que a ideia é apresentar o que a Bíblia tem a dizer e mostrar o quão plausível ela é. “Isso foi uma parte real da história. Não é apenas uma lenda”, afirma.

Plausível e real… Então tá!

Apesar de ser plausível e de não ser uma lenda, a Bíblia não traz o manual de construção da arca, portanto, na hora de desenhá-la, foi preciso especular. Por isso, a réplica da arca real (?) do parque será feita com uma mistura de madeiras diferentes.

Outra grande questão é como Noé conseguiu fazer caber casais de todos os animais da Terra em um barco com metade do tamanho de um transatlântico de cruzeiro atual. Pois bem, peguem suas calculadoras, e científicas.

Cientistas já catalogaram 1,3 milhão de espécies de animais, mas os idealizadores do “Ark Encounter” calculam que Noé pode ter abrigado de mil a 2 mil pares para representar todos os “tipos” de animal, como a Bíblia coloca. Ah bom, aí sim.

Sobre animais grandes como os dinossauros, Marsh diz que Noé pode ter levado filhotes ou ovos, para economizar espaço. Imagina que bonitinhos os filhotes de T-Rex, famintos, rosnando, mastigando as vigas da arca até que, para saciá-los, Noé dá a eles de jantar o macho de uma espécie qualquer que, convenhamos, não faria nenhuma falta. Até hoje não se sabe qual foi a iguaria sacrificada.

O designer Marsh – anotem este nome – também quer mostrar como os dejetos dos animais podem ter sido jogados fora da arca por meio de sistemas mecânicos e como a entrada de ar fresco nela pode ter sido mantida. Conseguem ouvir as harpas e o cântico?

Apesar de o objetivo do parque ser ensinar que a história de Noé foi verdadeira, o empreendimento também tem fins de lucro (estou estupefato!) e se inspira em parques temáticos não religiosos. Na exposição sobre a sociedade pré-dilúvio que Deus queria destruir, por exemplo, o plano é ter um templo com cerimônias pagãs representadas ao estilo “Disney”, diz o messiânico design. “Queremos que todos se divirtam, comprem souvenirs e passem um ótimo momento aqui”, finaliza Marsh.

Ou seja, no fim das “cerimônias” vão tacar rios de sangue e pragas em cima dos espectadores. Vai ser show!

Publicado originalmente no Literatortura

10 de junho de 2013

2º vídeo-crônica do livro do Beto está no ar

O Dia dos Namorados chegando, as flores desabrochando, os cupidos flechando e numa livraria qualquer em Londres, Julia procura pelo novo livro do Beto... Eis o 2º vídeo-crônica (sairá um por semana) da nossa campanha.

Você aí já sabe que o livrinho ainda precisa (e muito) de apoio para ser publicado. E agradeço demais àqueles que já colaboraram, mas ainda precisamos de muito compartilhamento, curtidas, e boca-a-boca para chegarmos ao objetivo. 


Se ainda não colaborou, clique aqui: catarse.me/cronicasdobeto

Bom, quem sabe este novo, e romântico, vídeo não ajude a degelar os coraçõezinhos ainda não alcançados.





6 de junho de 2013

Maracanã: um crime de lesa-pátria




por Beto Pacheco
(publicado também no Causas Perdidas)

Este é um artigo crítico-matemático (se não existe tal, lanço o gênero). Porém, como provavelmente você, leitor – muito menos eu –, não deve entender tanto da engenharia dos números, tentarei resumir a brincadeira a alguns parágrafos e dados, extraídos de sites, revistas e jornais, com os comentários logo abaixo de cada. Daí, de posse de tais informações, elaboraremos uma conta simples e, então, com o resultado em mãos, você poderá tentar fazer alguma coisa, caso tenha poder para tal; poderá divulgar para tentar engrossar o coro dos “pessimistas”, como acusou a nossa amada, idolatrada, salve, salve, cerveja Brahma; poderá ir à rua, quicar de verde e amarelo, na “maior arquibancada do Brasil”, como cantarola a Fiat e o Rappa; ou poderá, pelo menos, resmungar no almoço de domingo, regado a frango recheado, alguns impropérios junto a seus familiares. Bom, vamos lá:


“O edital de privatização do Maracanã proíbe a presença de clubes de futebol no processo licitatório” (ESPN Brasil)

A alegação, à época, foi de que o Maracanã não pode ficar nas mãos de um só clube. Ora, será isso mesmo ou foi apenas uma forma de manter o futuro do Maracanã nas mãos daqueles que já estavam acertados para tê-lo? Afinal de contas, o Engenhão é público, está(va) sob o controle do Botafogo e todo mundo jogava lá, ou estou maluco?


“A IMX, empresa de Eike Batista, que integra o consórcio liderado pela Odebrecht (e que venceu a licitação do controle do Maracanã), teria sido beneficiada por ter elaborado o estudo de viabilidade do novo complexo esportivo” (ESPN Brasil e outros)

A empresa que ganhou a licitação foi a mesma que fez o estudo de viabilidade? Puxa vida! Mas que moleza! Aliás, corrijam-me se eu estiver enganado: isso não é ilegal? Pior, tal licitação foi cassada por um juiz, às vésperas de ocorrer, e, horas depois, na calada da madrugada, liberada por uma desembargadora.

O Tribunal de Justiça do Rio ainda tenta derrubar (em vão, a meu ver) a fatídica licitação.



“O estádio de atletismo Célio de Barros e o Parque Aquático Julio Delamare, reformado por R$ 10 milhões (valores da época) para receber as provas de polo aquático do Pan de 2007, e que fazem parte do complexo do Maracanã, serão demolidos, dando lugar a estacionamentos, lojas e áreas de convivência.” (O Globo)

Que maravilha, destruiremos um estádio de atletismo e um parque aquático para construirmos lojas e “áreas de convivência”. Afinal de contas, precisamos renovar o “legado” com a Copa e a Olimpíada, não é mesmo? Portanto, vamos destruir o legado do Pan em prol das lojinhas e dos carrinhos, e o legado vindouro será destruído um dia em benefício de um novo legado, não esportivo e mais caro, evidentemente.

E isso que eu nem falei dos índios, tirados à bala de borracha e cassetetes do velho Museu, e da Escola Municipal Friedenreich, uma das 10 melhores do país e das 4 mais qualificadas do Rio de Janeiro, que também está ameaçada.   



Aliás, também li em algum lugar que a Fifa e o COI (Comitê Olímpico Internacional) negam que tenham solicitado as ditas demolições no primórdio dos projetos. Ué, mas então quem pediu? Por quê? Se eu tivesse que dar um palpite seria: “gentrificação.” Não sabe do que se trata? Então, não busque em dicionários, pois a explicação neles é “embelezada”. Neste caso, assista ao "trailer" do documentário Domínio Público (o longa está sendo filmado) abaixo e terá uma mera ideia do que estou falando.  


É bom deixar claro que as demolições ainda não aconteceram porque o Ministério Público tem tentado barrar tais absurdos a todo custo. Talvez (também) por isso o Governo esteja desesperado para emplacar a tal PEC 37. Mas vamos em frente e falemos disso noutra oportunidade, senão este artigo não termina nunca.


“O custo das obras do Maracanã chega a quase 900 milhões de Reais. O palco irá sediar a final do Mundial de 2014 e outros seis jogos da Copa do Mundo. A seleção brasileira, porém, só atuará no estádio se chegar à decisão.” (R7)

É isso mesmo que você leu... 900 milhões e temos o risco de não vermos a seleção, na Copa, jogar lá. E esse din-din todo sai do seu, do meu, dos nossos bolsos, dos nossos impostos. Porém, contudo, todavia, o Maracanã não será nem seu, nem meu, nem nosso, pois será privatizado. Aí você diz: “desde que tenhamos lucro com isso, seja financeiro, seja esportivo...” O problema é que já começamos perdendo no esportivo, porque a seleção poderá nem jogar lá e os clubes, que fizeram a lenda do Maracanã existir, não puderam participar do processo de licitação. E quanto ao quesito financeiro, leia o próximo tópico.




“O contrato de licitação determina o pagamento de outorga anual ao governo estadual no valor mínimo de R$ 7 milhões por 35 anos.” (ESPN Brasil)

Apesar das despesas, em 35 anos, o concessionário deve chegar a uma receita de mais de R$ 2 bilhões, descontados os investimentos (números de O Globo). Mas o estado verá só uma pequena parcela desse dinheiro, que nem pagará as obras em andamento. O cálculo é o seguinte: R$ 7 milhões por ano, a serem quitados em 33 parcelas anuais, com dois anos de carência, darão aos cofres públicos apenas R$ 231 milhões, passados os 35 anos, ou 26,86% do total investido, caso a concessão ocorra pelo valor mínimo. Mas que negócio bom! Devia ter arranjado um sócio, pegado uns trocados emprestados num banco e entrado nessa licitação. Pagar ¼ do total, já bancado pelo Estado, parcelado em 35 anos? Que teta!

O pior de tudo é que, como disse Jô Soares, depois dessa dinheirama toda, “transformaram o Maracanã em Maracaninho”. Aliás, Maracaninho incompleto, mas entregue mesmo assim. Na hora em que escrevia este artigo, o jogo de (re)inauguração, Brasil x Inglaterra, marcado para este domingo, dia 02 de maio, estava suspenso porque o local não “ofereceria a devida segurança”. Cansei, sem mais comentários!

Apesar disso, tenho certeza que ao ler, você, leitor, já saberá o resultado da partida. Ela certamente aconteceu. Afinal, nada impedirá que eles façam o que bem entendem. MP, tribunais, gritaria, bater panelas, manchetes, choradeira no Facebook, petição online, advogados, quebra-quebra, nada os deterá! Podemos saber qual é o crime, onde está sendo praticado e quanto está sendo roubado, mas jamais pegaremos os mordomos. 

Seja padrinho do 1º livro das Crônicas do Beto

Enfim está no ar! O projeto do meu livro, que se chamará "O FANTÁSTICO MUNDO DAS QUINQUILHARIAS", já está no Catarse.

Será uma coletânea de 51 crônicas literárias publicadas neste blog nos últimos 5 anos. Mas não vou me estender muito aqui, pois tudo está detalhado na minha página: catarse.me/cronicasdobeto

Espero que você aí, leitor, possa apoiar, curtir e compartilhar e, quem sabe, ler a publicação num futuro bem próximo. Os textos são naquele estilo que você já conhece (se não conhece, leia aqui uma crônica que estará no livro) e estou fazendo o máximo para que o embrulho (capa e edição) esteja à altura.  

Agora, se você ainda está indeciso, veja quem eu convidei para participar do vídeo de apresentação do projeto. Se eu fosse você, não recusaria o convite desse ilustre padrinho... 


 

Colabore! 


4 de junho de 2013

Sol





por Beto Pacheco



Dias ensolarados podem ser previstos pela meteorologia. Sim, podem. Evidente que se a meteorologia for carioca, por exemplo, isso fica mais fácil. Já para uma meteorologia curitibana, isso nem sempre é tão simples. Mas, vez ou outra, lá vem o Sol por cá também. E o melhor Sol é o imprevisto. Você acorda com o quarto em penumbra, cortinas cerradas, dá aquela espreguiçada gostosa, pois o dia anterior foi delicioso, e, quando abre a janela, tchan-tchan-tchan-tchan, um céu azul rasga-lhe a retina.

Daí você sorri e sabe que aquilo não estava previsto na meteorologia. Aliás, talvez estivesse previsto, mas não na meteorologia. Vinha de outras previsões, mais etéreas. Mas, claro, você não se dá conta, porque, simplesmente, não estava esperando aquele Sol. E eis o melhor Sol: o inesperado. Dourado, lindamente dourado, quente, que lhe recebe gentilmente, que chega de mãos dadas com uma brisa que sopra vida de primavera, cujas flores aplaudem e assopram velas.

Ah, não se engane, este não é um Sol de meteorologia. As nuvens podem ser. Não o sol. Ele vem empurrando-as, mesmo que elas não queiram, e aparece do nada. Diz “oi” e irradia, sem precisar fazer muita força. Surpreendendo, assim, os moços e moças do tempo. Aí você se pergunta “de onde veio este Sol?” De inspiração. Há, sim, o Sol de inspiração. Daquele capaz de fazer o poeta voltar a escrever, o músico voltar a compor e o mundo engatar uma terceira e partir em frente, girando com suas engrenagens azeitadas novamente.

Um viva ao Sol inesperado. Desses que vêm presentear um dia especial. Desses que clareiam aqueles que merecem. Que adentram por portas, janelas e todas as frestas. Que acarinham a pele e não pedem protetor. Um Sol dos mais gostosos, que não quer se pôr e se põe inteiramente à disposição de quem o quer. 

23 de maio de 2013

É o carro dos sonhos que vai passando, freguesia!

fonte: flaviogomes.warmup.com.br


por Beto Pacheco



Dia desses passou aqui em frente de casa o ‘carro dos sonhos’, freguesia. E isso, por si só, já denuncia - perceberia um desses geniais analisadores de perfis que trabalham no FBI e em séries da Sony - a minha classe social. Garanto que moradores do Batel, do Leblon, de Alphaville ou de Jurerê Internacional não têm o prazer de sair correndo portão afora, com cinco pila na mão, gritando, “Ô da Kombi, guenta aí!”

Enfim, não é da minha condição financeira que quero falar, quero voltar ao ‘carro do sonho’ que ia passando, freguesia. Quase não dei atenção a ele. Passou meio que despercebido, dada a rotina, com aquela voz que parece ser a mesma, gravada por alguém em uma fita K7 nos idos dos anos 1980 e que teria sido pirateada e agora é usada por todas as paratis, kombis e caravans que rodam ruas e mais ruas com os doces de leite, creme, nata e goiabada a nos tentar.

Só me lembrei do diabo do ‘carro dos sonhos’ porque, no dia seguinte, passou aqui em frente o ‘carro dos salgados’, freguesia. E eu “ué, mudou?” Espichei o pescoço pela janela e vi que era outro bólido, apesar da voz proveniente da caixa de som parecer a mesma. “Empadinha, coxinha, risoles, kibinho e ainda alugamos pratinhos, chapeuzinhos e o aniversariante, freguesia”.

Sonhos, salgados e solilóquios. 

Quando acordei, no dia seguinte ao ‘carro dos salgados’, fui tomar café e logo ouvi “É o carro dos peixes que vai passando, freguesia”. Ah tá, viramos o Circuito Dodô – Barra/Ondina – dos carros ambulantes agora?

E lá foi ele com “sardinha, camarão cinza, pescada, tilápia, limão e sushiman delivery, freguesia”. Começo a pensar que devo ligar para a vigilância sanitária.

Bom, a essa altura eu já estava intrigado, imaginando o que viria no dia seguinte. Demorei a dormir, meio ansioso. Sonhei com Kombi e com pastel de doce de leite com sardinha naquela noite. Pesadelo?

Toca o despertador, abro a janela e miro a esquina, só no aguardo. Nada. Mais alguns minutos e... nada! Seria dia de folga na micareta dos carros mercearias, freguesia? Desisto, vou ao guarda-roupa, escolho uma cueca, uma camiseta, pego uma toalha e... “É isso aí, freguesia...” Lá vinha ele! Quem seria? Qual gôndola seria a da vez? Seria o carro dos hortifruti? Dos vinhos importados? Da ração de cachorro? Do pêssego e do ovo, freguesia?

Foi quando veio a surpresa...

“É o 'carro da oração' que vai passando, freguesia! Benção relâmpago, óleo sagrado, bíblia sagrada, DVDs gospel, freguesia! Aceitamos cheque, cartões de crédito e débito, dinheiro ou a sua filha oferecida para ser temente e fiel seguidora do Senhor, freguesia. Venha tocar o manto ungido e abençoado, pois a salvação está em nosso carro.”

E juro, juro mesmo, que o que relatei é a mais pura verdade, freguesia. 

16 de maio de 2013

A incrível e triste história do cabaré da Tarcília e de uma igreja desalmada




por Beto Pacheco

Quando você vê uma peça de Ariano Suassuna, uma telenovela de Dias Gomes ou lê García Márquez, pensa: de onde vem tamanha criatividade? Como eles conseguem misturar situações fantasiosas em contextos tão realistas e criar uma obra mágica?

Bom, é fato que tal inspiração e qualidade narrativa só aparecem conjuntamente em talentos incomparáveis, como os citados, mas, se for simplesmente para achar o mote surreal do conto, basta gastar um pouco de sola de sapato e dar uma passeada pela vizinhança para ouvir uma historinha aqui, um causo ali, um ocorrido acolá e da realidade arrancar a ficção. Senão, veja o relato que corre à tecla pequena web afora e que, dizem, teria acontecido na paradisíaca cidade cearense de Aquiraz. Se é verdade ou não, fantasiemos. O certo é que poderia render uma peça daquelas. Ah, se renderia!

Dona Tarcília Bezerra, proprietárias de um cabaré, estava a construir uma nova área para o seu estabelecimento de entretenimento. Decidiu fazê-lo porque as atividades do local estavam em franco crescimento, dada a melhoria de vida dos locais após a criação do seguro desemprego para pescadores, além da implantação, nos últimos anos, de diversos outros modelos de bolsas auxílio. E aqui vai um adendo: não façamos julgamento dos benefícios das ditas bolsas, não vem ao caso nesta crônica, pois cada um consome o que lhe convém.

Porém, um tanto quanto escandalizados com o sucesso do cabaré, os integrantes de uma igreja evangélica local iniciaram uma forte campanha para frear a dita expansão do prédio. O método usado para tal? Sessões e mais sessões de orações pela manhã, à tarde e à noite. Amém!

Era, portanto, dona Tarcília, seus operários e operárias erguendo, a toque de caixa, os tijolos de um lado e os fieis rezando para derrubá-los do outro. Tudo parecia correr normalmente até que, faltando uma semana para a reinauguração do Bataclan... digo, do comércio, um raio despencou e atingiu em cheio o cabaré, queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção.

Após a destruição do local, o pastor e os frequentadores da igreja passaram a se gabar "do grande poder da oração". E quem não se gabaria?

Então, dona Tarcília, num movimento inesperado, processou a igreja, o pastor e toda a congregação sob o argumento de que eles "foram os responsáveis pelo fim de seu imóvel e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das suas ações ou meios”.

Muito melhor que Dias Gomes, diria o Macaco Simão.

Na contestação à ação judicial, a igreja negou veementemente toda e qualquer responsabilidade ou ligação com o fim do edifício. Ora, se até Pedro, o apóstolo, negou, e três vezes, por que não o fariam os discípulos contemporâneos, não é mesmo?

O juiz a quem o processo foi submetido leu a reclamação da autora, a resposta dos réus – deve ter dado aquela coçada na cachola – e, na audiência de conciliação, comentou:

– Eu não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!

E agora?

Se quer uma sugestão, seu juiz, faça como no filme O Milagre da Rua 34 e, tendo a nota de Real e o dizer “Deus Seja Louvado” nela presente como prova, dê razão à dona Tarcília. Afinal, se o Governo do Brasil acredita no divino a ponto de deixar tamanha confiança pública e documentada em sua moeda, quem é o Estado do Ceará para negar que o raio tenha descido, e justo no alvo, sob encomenda? 

10 de maio de 2013

Almuerzo



por Beto Pacheco

Quando fui a Montevidéu, a trabalho (relatei a viagem de ida na crônica ‘Muchas Gracias!’), desembarquei na cidade por volta da hora do almoço. Eu iria tocar à noite em um evento do Fluminense – sim, o time de futebol – e me hospedei no mesmo hotel onde ficaria a delegação. Fui a convite de um amigo que, na época, trabalhava no marketing do clube. Viajamos no mesmo voo, inclusive.

Logo que adentramos no saguão do hotel, o presidente do Flu aguardava este meu amigo e o chamou para almoçar. Evidente que o peão aqui não poderia acompanhá-los, pois o encontro deveria conter papos estratégicos. Aí ele falou “Beto, faça o check-in e peça alguma coisa para você comer lá no quarto mesmo”. Opa, beleza! “Tá liberado caviar?”, perguntei e ele me olhou meio enviesado, por sobre os aros dos óculos, sem dizer nada. “Macarrão, então, entendi”.

Fiz o check-in, subi ao quarto, tomei uma ducha, liguei a tevê, e abri o cardápio... em espanhol. Muito bem, tranquilo, não há por que entrar em pânico. Espanhol e inglês, Betão, mas você vai pedir macarrão mesmo, no hay problema. Fui tateando as palavras que reconheci aqui e ali e escolhi um prato que parecia ser macarrão ao molho branco.

Saquei o telefone, disquei e o recepcionista atendeu... em espanhol!

Respirei fundo e mandei, calmamente “Olá! Eeeu gostariiiia deee un macarãaao aaao mooolho braaanco.

Perfeito! Impossível de ele não compreender.

– Señor, yo no lo entiendo.
– Eeeu quieeero un maaacaaarãaao...
– Senõr, no entiendo nada.
– É esse aqui, ó... – apontei.
– ¿Qué?

Gringo mentecapto! Esbravejei internamente.

E foi só dar um segundo de silêncio, tentando achar as palavras certas, que o recepcionista desandou “Señor, pero que si, pero que no, ándale, ándale, maricon, e patatá patatá...” e tive de afastar o telefone da orelha.

– Paaasse paaara o restauraaante. – Fiz mais uma tentativa
– Ahn?!
– Res-tau-raaan-te.
– Ah, sí, ahora entiendo. Usted quiere tener el almuerzo.
– Isso! Almuerzo! Pode ser almuerzo, alfredo ou ao sugo, só mande com queijo ralado, por favor. 

9 de maio de 2013

Ingredientes certos por listas tortas



por Beto Pacheco


Meus caros confrades, escrevo a vocês para que, a partir de meu relato, possam evitar, seja no presente ou num futuro próximo, problemas desnecessários com vossas senhoras, namoradas, ficantes, pretendentes e afins. Para ser sincero, não vou lhes contar nenhum segredo, apenas quero lembrar-lhes ensinamentos provindos das Teorias da Comunicação. Coisa simples, mas que pode ser muito útil se debatida e pormenorizada com antecedência entre você e sua parceira nos minutos que antecedam visitas fatídicas a ambientes inóspitos, como, por exemplo, um supermercado.

A Comunicação, já dizia Sam Walton... Não foi o Waltom? Bom, a Comunicação, já dizia a Revista Veja... Melhor não? Certo, não importa quem disse então, a Comunicação define alguns elementos fundamentais para que haja, atenção para a redundância, a comunicação. São eles:


  • Emissor: o que emite a mensagem;
  • Receptor: o que recebe a mensagem;
  • Mensagem: o conjunto de informações transmitidas;
  • Código: a combinação de signos utilizados na transmissão de uma mensagem. A comunicação só se concretizará se o emissor e o receptor conhecerem o mesmo código, permitindo, portanto a decodificação por parte do segundo;
  • Canal de Comunicação (meio): por onde a mensagem é transmitida. Ex: TV, rádio, jornal, revista, cordas vocais, ar, bilhete, semáforo, lista de supermercado...;
  • Contexto: a situação a que a mensagem se refere, também chamado de referente.


Muito bem, dito isso, quero contar a vocês que tenho ido frequentemente ao supermercado com minha namorada. Na verdade, vamos semanalmente, pois minha sogra sofreu um acidente e está com o joelho debilitado, não podendo nem realizar sozinha, nem como auxiliar, imprescindível afazer. E como sou um gentleman – pois é, mulherada, esse já foi fisgado –, acompanho minha namorada porque não a deixaria carregar sozinha quilos e mais quilos de sacolas, empurrar carrinho capenga, angustiar-se com a escolha da peça mais bela de contrafilé, enfrentar fila sem um bate-papo agradável e ainda precisar manobrar o veículo no estacionamento tendo as facínoras pilastras a lhe cercar. Ela já perdeu a paciência com duas delas e as atropelou, inclusive. Por isso mesmo evito tirá-la do sério (escrevendo esta crônica?).

Na primeira vez, de tantas, que fomos ao mercado, sugeri que nos dividíssemos para acelerar o processo. Ela relutou de início, pois sente um leve sufocar e tonteira ao se distanciar alguns metros de mim, mas assimilou que era melhor que assim fosse. Porém, não se afastou sem antes perguntar “Tem certeza que você vai comprar tudo certinho?” Ora, que pergunta, mas é evidente. Lá fui eu com metade da lista de compras em mão. E fui impecável. Chá, farinha de trigo, arroz, leite semidesnatado (sim, estava especificado), café, açúcar... Tudo nos trinques e conforme tocava a lista.

No dia seguinte, não sei por qual motivo, debatemos as compras e ela me vem com essa: “Não dá pra deixar o Beto fazer compras sozinho.” Ué, como assim? “Pois ele foi lá e comprou o açúcar mais caro, o União.”

Opa, peralá! Na lista só dizia “Açúcar”. Não dizia se tinha de ser unido, desunido, refinado, requintado, grosseiro, cristal, caro, barato... Nada! Só “Açúcar”. Assim era a mensagem. Mas ela argumentou “Sim, amor, mas açúcar é açúcar, não precisa comprar o mais caro.” Ok, justo, entendido, probleminha de comunicação, ruído, vamos lá. Só pedi a ela que, na próxima, deixasse especificado “Açúcar barato” ou a marca em questão a ser evitada. Aliás, lembro-me que naquela mesma compra também tive dificuldades com a cotação do leite Molico e com a raça da ração da cã, mas essas foram resolvidas pré-passagem no caixa.

Segunda ida ao mercado – A Missão


Consegui, após 40 minutos de conversa, convencê-la a nos separarmos mais uma vez, a fim de vencermos o embate das compras de maneira mais serelepe. Peguei a minha metade da lista, que continha: 3 cebolas, 2 tomates, requeijão, margarina, queijo, presunto, açúcar Caravelas barato, molho de tomate, macarrão e lasanha .

Vejam só que bacana, os tomates e as cebolas contadinhos, o açúcar dedurado, sem risco de erro, com um código em português contemporâneo, fácil de ser decodificado. Assim que se faz! Já o queijo e o presunto formaram um assunto meio delicado, pois não sabia se eram em pedaço ou fatiados, mas arrisquei no “minha mãe mandou” e me dei bem. Ora, não havia mais erro. Fui lá, cacei o resto da lista e rumei ao encontro de minha amada no caixa. Começamos a colocar todos os produtos sobre a esteira, os que eu peguei juntamente com os que ela buscou – coisa mais romântica –, até que:

– Beto, o que é isso aqui?
– Lasanha.
– Era pra pegar lasanha pronta, congelada, querido.
– E como é que eu ia adivinhar?
– Já viu a minha mãe comprar só a massa da lasanha, dura, e se empenhar em montá-la por completo?
– Sei lá! Eu vi que a lasanha estava na lista ao lado do macarrão e do molho de tomate. Quando cheguei à gôndola, adivinha quem eram os amiguinhos que se apresentavam um do lado do outro: as massas cruas da lasanha, do macarrão e o molho de tomate. Fiz uma associação mental rápida e, voilà, estamos aqui.

Terceira ida ao mercado – O Frango Contra-Ataca


Acordei naquela manhã tremendo. Frio? Febre? Não, era dia de ir novamente ao supermercado. Eu estava decidido a fazer todo o trajeto, todinho, dos detergentes aos laticínios, da ração de cachorro aos hortifruti, ao lado dela. Seria um mero empurrador oficial de carrinho a cantarolar brega e torturantemente “Eu preciso dela / Só penso nela / A cada segundo / A vida sem ela / É uma janela / De costas pro mundo”. Nada nos separaria. 

Ledo engano.

Por algum motivo qualquer que não me recordo no momento – e nem importa para o dramático desfecho – estávamos atrasados e precisávamos fazer as compras rapidamente. Respirei fundo, meditei e solicitei uma lista mais detalhada. Eis: lata de milho, 2 tomates, pão fatiado comum, 3 leites semidesnatados (o mais barato), coador de café Melita grande, creme de leite e peito de frango resfriado (não congelado).

Pedi para que ela repetisse, com devidas análises, informações adicionais e protocolado em outra via, três vezes antes de eu rumar para o meu lado das compras. Ao partir, ela me disse “Querido, fique tranquilo, você vai conseguir.” Fiquei aterrorizado. Senti que poderia ser a minha última chance. Um tom de voz num misto de ironia e ameaça, sabe como? E lá fui eu again.

Peguei todos os ingredientes, crente de que, dessa vez, não havia erro. Recomparei a lista 17 vezes, pedi para que um japonês, uma senhora grisalha com um vestido de vovó e mais um repositor confirmassem também e fui em direção ao desconhecido. Já no caixa, enquanto minha namorada retirava os objetos do carrinho, eu me debulhava em suor e roer de unhas. “Tomara que esteja tudo certo, tomara que esteja tudo certo...”

– Beto...
– Foi culpa do japa e do repositor!
– Ahn?
– Foi a velha, então. Maldita velha! Prefiro ter um filho jornalista do que um filho velha.
– Não sei do que você tá falando. Só queria saber se não tinha peito de frango inteiro, só fatiado.
– Ah! Não, não, só fatiado.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Posso ir lá conferir?
– Mas não tava especificado “inteiro”, só “resfriado”.
– Posso ir lá conferir?
– Resfriado...

E ela voltou com um feladamãe dum frango resfriado inteiro que se escondera por de trás de um cartaz 1x2 metros que dizia 'PEITO DE FRANGO RESFRIADO INTEIRO AQUI'. E ainda tinha uma seta apontando para o AQUI, luzes piscantes e duas panicats expositoras. Se não fosse a minha aversão a panicats, amor, eu tinha visto. Juro!

O Retorno de Jedi


Em casa, minutos depois, minha sogra foi fazer um bolo salgado e desfiou o frango... Vai entender, não é mesmo? Temperou bonitinho, picou a cebola, juntou o milho e na hora de colocar o creme de leite:

- Filha, esse creme de leite tá aguado. Por que você comprou o light?

Gostaria de conseguir descrever a tristeza sentida por mim naquele momento. O bolo seria um dos enfeites comestíveis da mesa do chá de bebê da minha cunhada. Passei a tarde sofrendo, imaginando a cara das pessoas ao mastigar o dito bolo, “Mas o que, diabos, tem nesse salgado?”, e minha namorada tecendo o denso enredo de todos os erros por mim cometidos por inépcia na decodificação de mensagens supermercadológicas. Comecei a procurar psicólogos nas páginas amarelas da lista telefônica de 1997, que sustenta o criado mudo aqui de casa. As horas se passavam e eu teria de ir buscá-las, sogra e namorada, no tal chá. Pensei nos olhares de reprovação, nas cabeças abanando “não”, pra lá e pra cá, na travessa forrada com todo o bolo, rejeitado na primeira mastigada.

Quando elas entraram no carro, enfim, minha sogra falou “Beto, foi o bolo salgado mais gostoso que a gente já comeu. Ficou uma delícia!”

Rá! Ié-ié! Salsifufu!

É o que eu sempre digo, no quesito comunicação, decodifico ingredientes certos por listas tortas, meu chapa. 

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