por Beto Pacheco
Meus caros
confrades, escrevo a vocês para que, a partir de meu relato, possam evitar, seja no
presente ou num futuro próximo, problemas desnecessários com vossas senhoras,
namoradas, ficantes, pretendentes e afins. Para ser sincero, não vou lhes
contar nenhum segredo, apenas quero lembrar-lhes ensinamentos provindos das Teorias
da Comunicação. Coisa simples, mas que pode ser muito útil se debatida e
pormenorizada com antecedência entre você e sua parceira nos minutos que
antecedam visitas fatídicas a ambientes inóspitos, como, por exemplo, um
supermercado.
A Comunicação,
já dizia Sam Walton... Não foi o Waltom? Bom, a Comunicação, já dizia a Revista
Veja... Melhor não? Certo, não importa quem disse então, a Comunicação
define alguns elementos fundamentais para que haja, atenção para a redundância,
a comunicação. São eles:
- Emissor: o que
emite a mensagem;
- Receptor: o que
recebe a mensagem;
- Mensagem: o
conjunto de informações transmitidas;
- Código: a combinação
de signos utilizados na transmissão de uma mensagem. A comunicação só se
concretizará se o emissor e o receptor conhecerem o mesmo código, permitindo,
portanto a decodificação por parte do segundo;
- Canal de
Comunicação (meio): por onde a mensagem é transmitida. Ex: TV, rádio, jornal,
revista, cordas vocais, ar, bilhete, semáforo, lista de supermercado...;
- Contexto: a
situação a que a mensagem se refere, também chamado de referente.
Muito bem, dito
isso, quero contar a vocês que tenho ido frequentemente ao supermercado com
minha namorada. Na verdade, vamos semanalmente, pois minha sogra sofreu um
acidente e está com o joelho debilitado, não podendo nem realizar sozinha, nem como
auxiliar, imprescindível afazer. E como sou um gentleman – pois é, mulherada, esse
já foi fisgado –, acompanho minha namorada porque não a deixaria carregar
sozinha quilos e mais quilos de sacolas, empurrar carrinho capenga, angustiar-se
com a escolha da peça mais bela de contrafilé, enfrentar fila sem um bate-papo
agradável e ainda precisar manobrar o veículo no estacionamento tendo as
facínoras pilastras a lhe cercar. Ela já perdeu a paciência com duas delas e as
atropelou, inclusive. Por isso mesmo evito tirá-la do sério (escrevendo esta
crônica?).
Na primeira vez,
de tantas, que fomos ao mercado, sugeri que nos dividíssemos para acelerar o
processo. Ela relutou de início, pois sente um leve sufocar e tonteira ao se
distanciar alguns metros de mim, mas assimilou que era melhor que assim fosse. Porém,
não se afastou sem antes perguntar “Tem certeza que você vai comprar tudo
certinho?” Ora, que pergunta, mas é evidente. Lá fui eu com metade da lista de
compras em mão. E fui impecável. Chá, farinha de trigo, arroz, leite
semidesnatado (sim, estava especificado), café, açúcar... Tudo nos trinques e
conforme tocava a lista.
No dia seguinte,
não sei por qual motivo, debatemos as compras e ela me vem com essa: “Não dá
pra deixar o Beto fazer compras sozinho.” Ué, como assim? “Pois ele foi lá e
comprou o açúcar mais caro, o União.”
Opa, peralá! Na
lista só dizia “Açúcar”. Não dizia se tinha de ser unido, desunido, refinado,
requintado, grosseiro, cristal, caro, barato... Nada! Só “Açúcar”. Assim era a
mensagem. Mas ela argumentou “Sim, amor, mas açúcar é açúcar, não precisa
comprar o mais caro.” Ok, justo, entendido, probleminha de comunicação, ruído, vamos
lá. Só pedi a ela que, na próxima, deixasse especificado “Açúcar barato” ou a
marca em questão a ser evitada. Aliás, lembro-me que naquela mesma compra também
tive dificuldades com a cotação do leite Molico e com a raça da ração da cã, mas
essas foram resolvidas pré-passagem no caixa.
Segunda ida ao
mercado – A Missão
Consegui, após
40 minutos de conversa, convencê-la a nos separarmos mais uma vez, a fim de
vencermos o embate das compras de maneira mais serelepe. Peguei a minha metade
da lista, que continha: 3 cebolas, 2 tomates, requeijão, margarina, queijo,
presunto, açúcar Caravelas barato, molho de tomate, macarrão e lasanha .
Vejam só que
bacana, os tomates e as cebolas contadinhos, o açúcar dedurado, sem risco de
erro, com um código em português contemporâneo, fácil de ser decodificado.
Assim que se faz! Já o queijo e o presunto formaram um assunto meio delicado,
pois não sabia se eram em pedaço ou fatiados, mas arrisquei no “minha mãe
mandou” e me dei bem. Ora, não havia mais erro. Fui lá, cacei o resto da lista
e rumei ao encontro de minha amada no caixa. Começamos a colocar todos os
produtos sobre a esteira, os que eu peguei juntamente com os que ela buscou – coisa
mais romântica –, até que:
– Beto, o que é
isso aqui?
– Lasanha.
– Era pra pegar lasanha
pronta, congelada, querido.
– E como é que
eu ia adivinhar?
– Já viu a minha
mãe comprar só a massa da lasanha, dura, e se empenhar em montá-la por
completo?
– Sei lá! Eu vi
que a lasanha estava na lista ao lado do macarrão e do molho de tomate. Quando
cheguei à gôndola, adivinha quem eram os amiguinhos que se apresentavam um do
lado do outro: as massas cruas da lasanha, do macarrão e o molho de tomate. Fiz
uma associação mental rápida e, voilà,
estamos aqui.
Terceira ida ao
mercado – O Frango Contra-Ataca
Acordei naquela
manhã tremendo. Frio? Febre? Não, era dia de ir novamente ao supermercado. Eu
estava decidido a fazer todo o trajeto, todinho, dos detergentes aos
laticínios, da ração de cachorro aos hortifruti, ao lado dela. Seria um mero
empurrador oficial de carrinho a cantarolar brega e torturantemente “Eu preciso
dela / Só penso nela / A cada segundo / A vida sem ela / É uma janela / De
costas pro mundo”. Nada nos separaria.
Ledo engano.
Por algum motivo
qualquer que não me recordo no momento – e nem importa para o dramático
desfecho – estávamos atrasados e precisávamos fazer as compras rapidamente.
Respirei fundo, meditei e solicitei uma lista mais detalhada. Eis: lata de
milho, 2 tomates, pão fatiado comum, 3 leites semidesnatados (o mais barato), coador
de café Melita grande, creme de leite e peito de frango resfriado (não
congelado).
Pedi para que
ela repetisse, com devidas análises, informações adicionais e protocolado em
outra via, três vezes antes de eu rumar para o meu lado das compras. Ao partir,
ela me disse “Querido, fique tranquilo, você vai conseguir.” Fiquei
aterrorizado. Senti que poderia ser a minha última chance. Um tom de voz num
misto de ironia e ameaça, sabe como? E lá fui eu again.
Peguei todos os
ingredientes, crente de que, dessa vez, não havia erro. Recomparei a lista 17
vezes, pedi para que um japonês, uma senhora grisalha com um vestido de vovó e
mais um repositor confirmassem também e fui em direção ao desconhecido. Já no
caixa, enquanto minha namorada retirava os objetos do carrinho, eu me debulhava
em suor e roer de unhas. “Tomara que esteja tudo certo, tomara que esteja tudo
certo...”
– Beto...
– Foi culpa do
japa e do repositor!
– Ahn?
– Foi a velha,
então. Maldita velha! Prefiro ter um filho jornalista do que um filho velha.
– Não sei do que
você tá falando. Só queria saber se não tinha peito de frango inteiro, só
fatiado.
– Ah! Não, não,
só fatiado.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Posso ir lá
conferir?
– Mas não tava
especificado “inteiro”, só “resfriado”.
– Posso ir lá
conferir?
– Resfriado...
E ela voltou com
um feladamãe dum frango resfriado inteiro que se escondera por de trás de um
cartaz 1x2 metros que dizia 'PEITO DE FRANGO RESFRIADO INTEIRO AQUI'. E ainda tinha
uma seta apontando para o AQUI, luzes piscantes e duas panicats expositoras. Se
não fosse a minha aversão a panicats, amor, eu tinha visto. Juro!
O Retorno de
Jedi
Em casa, minutos
depois, minha sogra foi fazer um bolo salgado e desfiou o frango... Vai
entender, não é mesmo? Temperou bonitinho, picou a cebola, juntou o milho e na
hora de colocar o creme de leite:
- Filha, esse
creme de leite tá aguado. Por que você comprou o light?
Gostaria de
conseguir descrever a tristeza sentida por mim naquele momento. O bolo seria um
dos enfeites comestíveis da mesa do chá de bebê da minha cunhada. Passei a
tarde sofrendo, imaginando a cara das pessoas ao mastigar o dito bolo, “Mas o
que, diabos, tem nesse salgado?”, e minha namorada tecendo o denso enredo de
todos os erros por mim cometidos por inépcia na decodificação de mensagens
supermercadológicas. Comecei a procurar psicólogos nas páginas amarelas da
lista telefônica de 1997, que sustenta o criado mudo aqui de casa. As horas se
passavam e eu teria de ir buscá-las, sogra e namorada, no tal chá. Pensei nos
olhares de reprovação, nas cabeças abanando “não”, pra lá e pra cá, na travessa
forrada com todo o bolo, rejeitado na primeira mastigada.
Quando elas
entraram no carro, enfim, minha sogra falou “Beto, foi o bolo salgado mais
gostoso que a gente já comeu. Ficou uma delícia!”
Rá! Ié-ié!
Salsifufu!
É o que eu
sempre digo, no quesito comunicação, decodifico ingredientes certos por listas
tortas, meu chapa.