23 de maio de 2013

É o carro dos sonhos que vai passando, freguesia!

fonte: flaviogomes.warmup.com.br


por Beto Pacheco



Dia desses passou aqui em frente de casa o ‘carro dos sonhos’, freguesia. E isso, por si só, já denuncia - perceberia um desses geniais analisadores de perfis que trabalham no FBI e em séries da Sony - a minha classe social. Garanto que moradores do Batel, do Leblon, de Alphaville ou de Jurerê Internacional não têm o prazer de sair correndo portão afora, com cinco pila na mão, gritando, “Ô da Kombi, guenta aí!”

Enfim, não é da minha condição financeira que quero falar, quero voltar ao ‘carro do sonho’ que ia passando, freguesia. Quase não dei atenção a ele. Passou meio que despercebido, dada a rotina, com aquela voz que parece ser a mesma, gravada por alguém em uma fita K7 nos idos dos anos 1980 e que teria sido pirateada e agora é usada por todas as paratis, kombis e caravans que rodam ruas e mais ruas com os doces de leite, creme, nata e goiabada a nos tentar.

Só me lembrei do diabo do ‘carro dos sonhos’ porque, no dia seguinte, passou aqui em frente o ‘carro dos salgados’, freguesia. E eu “ué, mudou?” Espichei o pescoço pela janela e vi que era outro bólido, apesar da voz proveniente da caixa de som parecer a mesma. “Empadinha, coxinha, risoles, kibinho e ainda alugamos pratinhos, chapeuzinhos e o aniversariante, freguesia”.

Sonhos, salgados e solilóquios. 

Quando acordei, no dia seguinte ao ‘carro dos salgados’, fui tomar café e logo ouvi “É o carro dos peixes que vai passando, freguesia”. Ah tá, viramos o Circuito Dodô – Barra/Ondina – dos carros ambulantes agora?

E lá foi ele com “sardinha, camarão cinza, pescada, tilápia, limão e sushiman delivery, freguesia”. Começo a pensar que devo ligar para a vigilância sanitária.

Bom, a essa altura eu já estava intrigado, imaginando o que viria no dia seguinte. Demorei a dormir, meio ansioso. Sonhei com Kombi e com pastel de doce de leite com sardinha naquela noite. Pesadelo?

Toca o despertador, abro a janela e miro a esquina, só no aguardo. Nada. Mais alguns minutos e... nada! Seria dia de folga na micareta dos carros mercearias, freguesia? Desisto, vou ao guarda-roupa, escolho uma cueca, uma camiseta, pego uma toalha e... “É isso aí, freguesia...” Lá vinha ele! Quem seria? Qual gôndola seria a da vez? Seria o carro dos hortifruti? Dos vinhos importados? Da ração de cachorro? Do pêssego e do ovo, freguesia?

Foi quando veio a surpresa...

“É o 'carro da oração' que vai passando, freguesia! Benção relâmpago, óleo sagrado, bíblia sagrada, DVDs gospel, freguesia! Aceitamos cheque, cartões de crédito e débito, dinheiro ou a sua filha oferecida para ser temente e fiel seguidora do Senhor, freguesia. Venha tocar o manto ungido e abençoado, pois a salvação está em nosso carro.”

E juro, juro mesmo, que o que relatei é a mais pura verdade, freguesia. 

16 de maio de 2013

A incrível e triste história do cabaré da Tarcília e de uma igreja desalmada




por Beto Pacheco

Quando você vê uma peça de Ariano Suassuna, uma telenovela de Dias Gomes ou lê García Márquez, pensa: de onde vem tamanha criatividade? Como eles conseguem misturar situações fantasiosas em contextos tão realistas e criar uma obra mágica?

Bom, é fato que tal inspiração e qualidade narrativa só aparecem conjuntamente em talentos incomparáveis, como os citados, mas, se for simplesmente para achar o mote surreal do conto, basta gastar um pouco de sola de sapato e dar uma passeada pela vizinhança para ouvir uma historinha aqui, um causo ali, um ocorrido acolá e da realidade arrancar a ficção. Senão, veja o relato que corre à tecla pequena web afora e que, dizem, teria acontecido na paradisíaca cidade cearense de Aquiraz. Se é verdade ou não, fantasiemos. O certo é que poderia render uma peça daquelas. Ah, se renderia!

Dona Tarcília Bezerra, proprietárias de um cabaré, estava a construir uma nova área para o seu estabelecimento de entretenimento. Decidiu fazê-lo porque as atividades do local estavam em franco crescimento, dada a melhoria de vida dos locais após a criação do seguro desemprego para pescadores, além da implantação, nos últimos anos, de diversos outros modelos de bolsas auxílio. E aqui vai um adendo: não façamos julgamento dos benefícios das ditas bolsas, não vem ao caso nesta crônica, pois cada um consome o que lhe convém.

Porém, um tanto quanto escandalizados com o sucesso do cabaré, os integrantes de uma igreja evangélica local iniciaram uma forte campanha para frear a dita expansão do prédio. O método usado para tal? Sessões e mais sessões de orações pela manhã, à tarde e à noite. Amém!

Era, portanto, dona Tarcília, seus operários e operárias erguendo, a toque de caixa, os tijolos de um lado e os fieis rezando para derrubá-los do outro. Tudo parecia correr normalmente até que, faltando uma semana para a reinauguração do Bataclan... digo, do comércio, um raio despencou e atingiu em cheio o cabaré, queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção.

Após a destruição do local, o pastor e os frequentadores da igreja passaram a se gabar "do grande poder da oração". E quem não se gabaria?

Então, dona Tarcília, num movimento inesperado, processou a igreja, o pastor e toda a congregação sob o argumento de que eles "foram os responsáveis pelo fim de seu imóvel e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das suas ações ou meios”.

Muito melhor que Dias Gomes, diria o Macaco Simão.

Na contestação à ação judicial, a igreja negou veementemente toda e qualquer responsabilidade ou ligação com o fim do edifício. Ora, se até Pedro, o apóstolo, negou, e três vezes, por que não o fariam os discípulos contemporâneos, não é mesmo?

O juiz a quem o processo foi submetido leu a reclamação da autora, a resposta dos réus – deve ter dado aquela coçada na cachola – e, na audiência de conciliação, comentou:

– Eu não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!

E agora?

Se quer uma sugestão, seu juiz, faça como no filme O Milagre da Rua 34 e, tendo a nota de Real e o dizer “Deus Seja Louvado” nela presente como prova, dê razão à dona Tarcília. Afinal, se o Governo do Brasil acredita no divino a ponto de deixar tamanha confiança pública e documentada em sua moeda, quem é o Estado do Ceará para negar que o raio tenha descido, e justo no alvo, sob encomenda? 

E o livro vem aí...

Como eu sei que muitos por aí estão afoitos, ansiosos, sofrendo mesmo, com os bolsos, carteiras e cartões a coçar, querendo ajudar este pobre (sim, falamos de finanças) autor, então vou atualizar a situação do livro de crônicas que vem aí para abalar o mundo.

O pré-projeto de financiamento já foi enviado ao www.catarse.me e estamos em fase de ajustes. Além disso, essa magnânima obra literária já está em processo de revisão, também está passando por algumas leituras preliminares e foi entregue ao meu caro amigo José Carlos Fernandes, que escreverá a orelha/prefácio (ele decide). 


Agora, vamos à diagramação...

Dá trabalho, mas é divertido. 

10 de maio de 2013

Almuerzo



por Beto Pacheco

Quando fui a Montevidéu, a trabalho (relatei a viagem de ida na crônica ‘Muchas Gracias!’), desembarquei na cidade por volta da hora do almoço. Eu iria tocar à noite em um evento do Fluminense – sim, o time de futebol – e me hospedei no mesmo hotel onde ficaria a delegação. Fui a convite de um amigo que, na época, trabalhava no marketing do clube. Viajamos no mesmo voo, inclusive.

Logo que adentramos no saguão do hotel, o presidente do Flu aguardava este meu amigo e o chamou para almoçar. Evidente que o peão aqui não poderia acompanhá-los, pois o encontro deveria conter papos estratégicos. Aí ele falou “Beto, faça o check-in e peça alguma coisa para você comer lá no quarto mesmo”. Opa, beleza! “Tá liberado caviar?”, perguntei e ele me olhou meio enviesado, por sobre os aros dos óculos, sem dizer nada. “Macarrão, então, entendi”.

Fiz o check-in, subi ao quarto, tomei uma ducha, liguei a tevê, e abri o cardápio... em espanhol. Muito bem, tranquilo, não há por que entrar em pânico. Espanhol e inglês, Betão, mas você vai pedir macarrão mesmo, no hay problema. Fui tateando as palavras que reconheci aqui e ali e escolhi um prato que parecia ser macarrão ao molho branco.

Saquei o telefone, disquei e o recepcionista atendeu... em espanhol!

Respirei fundo e mandei, calmamente “Olá! Eeeu gostariiiia deee un macarãaao aaao mooolho braaanco.

Perfeito! Impossível de ele não compreender.

– Señor, yo no lo entiendo.
– Eeeu quieeero un maaacaaarãaao...
– Senõr, no entiendo nada.
– É esse aqui, ó... – apontei.
– ¿Qué?

Gringo mentecapto! Esbravejei internamente.

E foi só dar um segundo de silêncio, tentando achar as palavras certas, que o recepcionista desandou “Señor, pero que si, pero que no, ándale, ándale, maricon, e patatá patatá...” e tive de afastar o telefone da orelha.

– Paaasse paaara o restauraaante. – Fiz mais uma tentativa
– Ahn?!
– Res-tau-raaan-te.
– Ah, sí, ahora entiendo. Usted quiere tener el almuerzo.
– Isso! Almuerzo! Pode ser almuerzo, alfredo ou ao sugo, só mande com queijo ralado, por favor. 

9 de maio de 2013

Ingredientes certos por listas tortas



por Beto Pacheco


Meus caros confrades, escrevo a vocês para que, a partir de meu relato, possam evitar, seja no presente ou num futuro próximo, problemas desnecessários com vossas senhoras, namoradas, ficantes, pretendentes e afins. Para ser sincero, não vou lhes contar nenhum segredo, apenas quero lembrar-lhes ensinamentos provindos das Teorias da Comunicação. Coisa simples, mas que pode ser muito útil se debatida e pormenorizada com antecedência entre você e sua parceira nos minutos que antecedam visitas fatídicas a ambientes inóspitos, como, por exemplo, um supermercado.

A Comunicação, já dizia Sam Walton... Não foi o Waltom? Bom, a Comunicação, já dizia a Revista Veja... Melhor não? Certo, não importa quem disse então, a Comunicação define alguns elementos fundamentais para que haja, atenção para a redundância, a comunicação. São eles:


  • Emissor: o que emite a mensagem;
  • Receptor: o que recebe a mensagem;
  • Mensagem: o conjunto de informações transmitidas;
  • Código: a combinação de signos utilizados na transmissão de uma mensagem. A comunicação só se concretizará se o emissor e o receptor conhecerem o mesmo código, permitindo, portanto a decodificação por parte do segundo;
  • Canal de Comunicação (meio): por onde a mensagem é transmitida. Ex: TV, rádio, jornal, revista, cordas vocais, ar, bilhete, semáforo, lista de supermercado...;
  • Contexto: a situação a que a mensagem se refere, também chamado de referente.


Muito bem, dito isso, quero contar a vocês que tenho ido frequentemente ao supermercado com minha namorada. Na verdade, vamos semanalmente, pois minha sogra sofreu um acidente e está com o joelho debilitado, não podendo nem realizar sozinha, nem como auxiliar, imprescindível afazer. E como sou um gentleman – pois é, mulherada, esse já foi fisgado –, acompanho minha namorada porque não a deixaria carregar sozinha quilos e mais quilos de sacolas, empurrar carrinho capenga, angustiar-se com a escolha da peça mais bela de contrafilé, enfrentar fila sem um bate-papo agradável e ainda precisar manobrar o veículo no estacionamento tendo as facínoras pilastras a lhe cercar. Ela já perdeu a paciência com duas delas e as atropelou, inclusive. Por isso mesmo evito tirá-la do sério (escrevendo esta crônica?).

Na primeira vez, de tantas, que fomos ao mercado, sugeri que nos dividíssemos para acelerar o processo. Ela relutou de início, pois sente um leve sufocar e tonteira ao se distanciar alguns metros de mim, mas assimilou que era melhor que assim fosse. Porém, não se afastou sem antes perguntar “Tem certeza que você vai comprar tudo certinho?” Ora, que pergunta, mas é evidente. Lá fui eu com metade da lista de compras em mão. E fui impecável. Chá, farinha de trigo, arroz, leite semidesnatado (sim, estava especificado), café, açúcar... Tudo nos trinques e conforme tocava a lista.

No dia seguinte, não sei por qual motivo, debatemos as compras e ela me vem com essa: “Não dá pra deixar o Beto fazer compras sozinho.” Ué, como assim? “Pois ele foi lá e comprou o açúcar mais caro, o União.”

Opa, peralá! Na lista só dizia “Açúcar”. Não dizia se tinha de ser unido, desunido, refinado, requintado, grosseiro, cristal, caro, barato... Nada! Só “Açúcar”. Assim era a mensagem. Mas ela argumentou “Sim, amor, mas açúcar é açúcar, não precisa comprar o mais caro.” Ok, justo, entendido, probleminha de comunicação, ruído, vamos lá. Só pedi a ela que, na próxima, deixasse especificado “Açúcar barato” ou a marca em questão a ser evitada. Aliás, lembro-me que naquela mesma compra também tive dificuldades com a cotação do leite Molico e com a raça da ração da cã, mas essas foram resolvidas pré-passagem no caixa.

Segunda ida ao mercado – A Missão


Consegui, após 40 minutos de conversa, convencê-la a nos separarmos mais uma vez, a fim de vencermos o embate das compras de maneira mais serelepe. Peguei a minha metade da lista, que continha: 3 cebolas, 2 tomates, requeijão, margarina, queijo, presunto, açúcar Caravelas barato, molho de tomate, macarrão e lasanha .

Vejam só que bacana, os tomates e as cebolas contadinhos, o açúcar dedurado, sem risco de erro, com um código em português contemporâneo, fácil de ser decodificado. Assim que se faz! Já o queijo e o presunto formaram um assunto meio delicado, pois não sabia se eram em pedaço ou fatiados, mas arrisquei no “minha mãe mandou” e me dei bem. Ora, não havia mais erro. Fui lá, cacei o resto da lista e rumei ao encontro de minha amada no caixa. Começamos a colocar todos os produtos sobre a esteira, os que eu peguei juntamente com os que ela buscou – coisa mais romântica –, até que:

– Beto, o que é isso aqui?
– Lasanha.
– Era pra pegar lasanha pronta, congelada, querido.
– E como é que eu ia adivinhar?
– Já viu a minha mãe comprar só a massa da lasanha, dura, e se empenhar em montá-la por completo?
– Sei lá! Eu vi que a lasanha estava na lista ao lado do macarrão e do molho de tomate. Quando cheguei à gôndola, adivinha quem eram os amiguinhos que se apresentavam um do lado do outro: as massas cruas da lasanha, do macarrão e o molho de tomate. Fiz uma associação mental rápida e, voilà, estamos aqui.

Terceira ida ao mercado – O Frango Contra-Ataca


Acordei naquela manhã tremendo. Frio? Febre? Não, era dia de ir novamente ao supermercado. Eu estava decidido a fazer todo o trajeto, todinho, dos detergentes aos laticínios, da ração de cachorro aos hortifruti, ao lado dela. Seria um mero empurrador oficial de carrinho a cantarolar brega e torturantemente “Eu preciso dela / Só penso nela / A cada segundo / A vida sem ela / É uma janela / De costas pro mundo”. Nada nos separaria. 

Ledo engano.

Por algum motivo qualquer que não me recordo no momento – e nem importa para o dramático desfecho – estávamos atrasados e precisávamos fazer as compras rapidamente. Respirei fundo, meditei e solicitei uma lista mais detalhada. Eis: lata de milho, 2 tomates, pão fatiado comum, 3 leites semidesnatados (o mais barato), coador de café Melita grande, creme de leite e peito de frango resfriado (não congelado).

Pedi para que ela repetisse, com devidas análises, informações adicionais e protocolado em outra via, três vezes antes de eu rumar para o meu lado das compras. Ao partir, ela me disse “Querido, fique tranquilo, você vai conseguir.” Fiquei aterrorizado. Senti que poderia ser a minha última chance. Um tom de voz num misto de ironia e ameaça, sabe como? E lá fui eu again.

Peguei todos os ingredientes, crente de que, dessa vez, não havia erro. Recomparei a lista 17 vezes, pedi para que um japonês, uma senhora grisalha com um vestido de vovó e mais um repositor confirmassem também e fui em direção ao desconhecido. Já no caixa, enquanto minha namorada retirava os objetos do carrinho, eu me debulhava em suor e roer de unhas. “Tomara que esteja tudo certo, tomara que esteja tudo certo...”

– Beto...
– Foi culpa do japa e do repositor!
– Ahn?
– Foi a velha, então. Maldita velha! Prefiro ter um filho jornalista do que um filho velha.
– Não sei do que você tá falando. Só queria saber se não tinha peito de frango inteiro, só fatiado.
– Ah! Não, não, só fatiado.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Posso ir lá conferir?
– Mas não tava especificado “inteiro”, só “resfriado”.
– Posso ir lá conferir?
– Resfriado...

E ela voltou com um feladamãe dum frango resfriado inteiro que se escondera por de trás de um cartaz 1x2 metros que dizia 'PEITO DE FRANGO RESFRIADO INTEIRO AQUI'. E ainda tinha uma seta apontando para o AQUI, luzes piscantes e duas panicats expositoras. Se não fosse a minha aversão a panicats, amor, eu tinha visto. Juro!

O Retorno de Jedi


Em casa, minutos depois, minha sogra foi fazer um bolo salgado e desfiou o frango... Vai entender, não é mesmo? Temperou bonitinho, picou a cebola, juntou o milho e na hora de colocar o creme de leite:

- Filha, esse creme de leite tá aguado. Por que você comprou o light?

Gostaria de conseguir descrever a tristeza sentida por mim naquele momento. O bolo seria um dos enfeites comestíveis da mesa do chá de bebê da minha cunhada. Passei a tarde sofrendo, imaginando a cara das pessoas ao mastigar o dito bolo, “Mas o que, diabos, tem nesse salgado?”, e minha namorada tecendo o denso enredo de todos os erros por mim cometidos por inépcia na decodificação de mensagens supermercadológicas. Comecei a procurar psicólogos nas páginas amarelas da lista telefônica de 1997, que sustenta o criado mudo aqui de casa. As horas se passavam e eu teria de ir buscá-las, sogra e namorada, no tal chá. Pensei nos olhares de reprovação, nas cabeças abanando “não”, pra lá e pra cá, na travessa forrada com todo o bolo, rejeitado na primeira mastigada.

Quando elas entraram no carro, enfim, minha sogra falou “Beto, foi o bolo salgado mais gostoso que a gente já comeu. Ficou uma delícia!”

Rá! Ié-ié! Salsifufu!

É o que eu sempre digo, no quesito comunicação, decodifico ingredientes certos por listas tortas, meu chapa. 

8 de maio de 2013

Sentencie-se (Trial By Timeline)

Campanha comemorativa dos 50 anos de lutas da Anistia Internacional pelos direitos humanos


por Beto Pacheco

A Anistia Internacional (organização não governamental que defende os direitos humanos) criou um site chamado Trial By Timeline que revela, através de uma análise automática da sua conta de Facebook, quantas vezes, com quais punições, em que crimes e países você seria acusado, perseguido e/ou condenado pelos mais absurdos motivos. Aliás, é assustador descobrir que há locais no mundo em que a pessoa seria punida, simplesmente, por ter uma conta em uma rede social, por exemplo.

Curioso que sou, resolvi, no melhor estilo Hunter S. Thompson e seu jornalismo gonzo, experimentar na própria carne (digital, no meu caso) o site para noticiá-lo com as devidas percepções.

Após linkar o Trial By Timeline ao meu perfil e esperar ser “investigado” descobri que em diversos países eu sofreria severas penalidades, acredite, por ser jornalista ou por exercer “equivocadamente” a minha liberdade de expressão. Além disso, em algumas regiões o simples fato de não declarar a minha religião publicamente já seria motivo para tortura, prisão ou perseguição. Veja o que mais a minha conta revelou e que poderia ser usado contra mim em um tribunal (tribunal?) mundo afora.


O Beto aqui teria no currículo 96 condenações por 6 crimes diferentes em 46 países. Ou seja, para determinados governos sou muito pior que o Fernandinho Beira-Mar, o goleiro Bruno e o José Dirceu juntos. 

Eu teria sido espancado 38 vezes, principalmente em Montenegro, por crimes relacionados com a mídia, dada a minha profissão, e na Bulgaria, por, veja só, ser considerado islâmico, já que acompanho as atualizações da página do Muhammad Ali. Vamos dar um desconto à dificuldade de julgamento da maquininha neste caso.


Também teria sido torturado 38 vezes.  No Turcomenistão por, novamente, envolvimento com a mídia (e isso que o meu diploma nem tem mais valor. Valeu, Supremo!). No Uzbequistão, pelas minhas ditas relações muçulmanas, já citadas, com o Sr. Muhammad Ali (será que adianta eu contar aos uzbeques que não o conheço?) e no Afeganistão eu sofreria tortura por blasfêmia e ateísmo, pelo simples fato de não assumir minha religião em meu perfil.

Ora, decidam-se, ou eu sou ateu ou muçulmano. Nem na Bahia seria possível inescrupuloso sincretismo.

Já em Mianmar eu teria me lascado por exercer minha liberdade de expressão e ter conta no Facebook. Pensa só o que sofreria o Zuckerberg.

Bom, pelo menos descobri que não seria decapitado em nenhum lugar (refiro-me ao país). Ufa!

Contudo, teria sido preso 48 vezes. Principalmente em Mianmar, Afeganistão e Uzbequistão. Algo me diz que o povo de Mianmar está de perseguição comigo.


Agora, se podemos achar algo positivo, também não tenho nenhuma acusação que me levasse à morte por fuzilamento. Ou seja, até o momento, seria só uma torturazinha aqui, um espancamento ali e 497 anos de cadeia, nada demais.

E no quesito chibatadas também estou tranquilo, pois teria ido ao tronco apenas 3 vezes. Isso na Indonésia, já que eu, uma vez – nem lembro quando foi – baixei um aplicativo de poker online. Detalhe: cujo dinheiro é fictício.

Voltando às condenações por morte, começo a perceber que sou um cara do bem, apesar de cometer alguns deslizes, porque novamente escapei, segundo as análises em meu Face, de ser enforcado, apedrejado até a morte ou morto por injeção letal. Tomara que os texanos continuem ignorando que pendo para os democratas.

Porém, apesar de os Estados vigentes não me condenarem à morte, não posso dizer o mesmo em relação ao Poder Paralelo, pois eu teria sido assassinado por extremistas 12 vezes (chupa, Highlander!). Parece aquela história do empresário falido que, não suportando mais sua vida, suicidou-se de modo eloquente com 6 tiros na cabeça, pá-pá-pá-pá-pá... e pá!

Bom, isso aconteceria no México, pelo fato de eu ser jornalista e editor, e provavelmente vir a dedurar traficantes; e no Iraque e na Tailândia por ambos me considerarem muçulmano (o Ali tá me complicando).  As tais 12 mortes seriam fruto das 31 perseguições que eu sofreria pelos motivos e países já citados.

Ao pensar em cada chibatada, pedrada, grade ou tortura às quais seria submetido se a cegonha tivesse errado o endereço, só consigo me lembrar das palavras de um amigo: falhamos como espécie.

Eis o site, caso você queira arriscar a sorte: http://www.trialbytimeline.org.nz/

A origem das festas de aniversário




por Beto Pacheco

Semana passada um amigo me perguntou: “Cara, você que é um leitor/pesquisador-fodástico (sic), sabe de onde surgiu a cultura de comemorar o aniversario?”

Mas que perguntinha, hein? Não sei de onde ele tirou que eu saberia tal resposta, muito menos o porquê da alcunha de leitor/pesquisador-fodástico, mas pelo menos Guimarães Rosa deve ter ficado contente.

O fato é que achei curiosa a questão e fui pesquisar, fodasticamente, e descobri várias curiosidades sobre o assunto.  Segundo o site ‘Mundo Estranho’ (só podia ser) “[...] o livro The Lore of Birthdays (‘A Sabedoria dos Aniversários’, sem tradução em português), dos antropólogos americanos Ralph e Adelin Linton, explica que aniversários merecem comemorações desde o Egito antigo. Ou seja, a moda surgiu por volta de 3000 a.C. Só que, tanto os egípcios quanto os gregos, que adotaram o costume, restringiam as comemorações apenas a seres superiores: faraós e deuses. [...]” Isso quer dizer que, se ainda fosse assim, apenas o Fidel Castro e o finado Hugo Chávez poderiam comemorar.

“[...] Com o tempo, o hábito foi se estendendo aos mortais e contaminou também os romanos, que davam o privilégio ao imperador, à sua família e aos senadores.[...]” Muito bem, já temos Castro, Chavez e agora o Sarney na jogada... E, posteriormente, “[...] Nos primórdios do cristianismo, o costume foi abolido por causa das suas origens pagãs. Foi só no século 4, quando a Igreja começou a celebrar o nascimento de Cristo, o Natal, que ressurgiu (ah tá, deixou de ser pagão como num passe de mágica) o hábito de festejar aniversários e pouco a pouco foram aparecendo as peças simbólicas: o bolo, as velinhas, o ‘Parabéns a Você’ etc.[...]” e logo chegamos à conclusão de que a Igreja, até na banalidade de um aniversário, molda as regras de acordo com os seus interesses vigentes.

Mais umas surpresinhas das festas de aniversário:

O hábito de dar presentes tem o objetivo original de afastar os maus espíritos (gostaria de entender como tal afastamento se daria), o que já acontecia no Egito antigo – sempre os egípcios – e em Roma. Já os primeiros balões não eram feitos de plástico, evidentemente, mas de intestinos e tripas de animais mortos, inflados com ar... E alguém por aí ainda acredita que nós somos os animais inteligentes sobre a Terra. Os balõezinhos de tripa, dizem, teriam sido os primeiros brinquedos das crianças. Ah, beleza, aí sim.

O bolo e as velas foram herdados dos gregos – estou ficando meio tonto. Todo dia 6, eles faziam festas à deusa Artemis, nas quais colocavam velas sobre uma torta, simbolizando a lua cheia, que, segundo a mitologia, era a forma com que a deusa se expressava. Na Idade Média, por razões desconhecidas, os alemães (jurava que tinham sido os egípcios) do nada retomaram o hábito em festas de criança.

E por fim – ufa! – o docinho mais famoso dos aniversários é brasileiro e surgiu na disputa presidencial de 1945. Eleitoras do brigadeiro Eduardo Gomes criaram o "doce do brigadeiro" tentando conquistar votos através do paladar do eleitorado. O doce foi um sucesso, mas o brigadeiro acabou perdendo as eleições.

Então, vamos ao resumo: comemoramos o aniversário, ao longo dos séculos, para lamber as botas de faraós, deuses, deusas, imperadores, senadores, presidentes, cristos, para nos safar de espíritos malignos e zombeteiros, e para que as crianças se esfalfem com balões de tripas de bichinhos. O tempo passa, o tempo voa...

7 de maio de 2013

Quem não gosta de crônica bom sujeito não é




"A crônica é uma espécie de recreio. Vale tudo. A gente pega um nadinha — um sujeito que passa —e escreve duas páginas sobre o nadinha. (“A borboleta amarela”, do Rubem Braga, é o melhor exemplo disso). Ou inventa uma história com o tal sujeito (e aqui a crônica se transforma em contos breves, bem humorados, refinados). Ou escreve duas páginas e meia para dizer que não há nada a falar do tal sujeito. Quantas crônicas já foram escritas para registrar que, naquele dia, o cronista não tinha nada a escrever?

A crônica está entre o jornalismo e a literatura, equilibrando-se por ali. Por isso também permite esse vale tudo. Uma notícia, um fato, uma frase, uma mania nacional etc. podem virar crônica. A leitura de um livro. O encontro de um novo amor. A perda de um amor. Um passeio. Um pardal num fio de luz. Enfim, tudo.


Só não pode chatear o leitor. O cronista tem um pé na literatura e outro no jornalismo, por isso tem um olho no texto e outro no leitor. Talvez, de todos os gêneros, seja o mais gentil, generoso, acessível, amigo.

E é preciso lembrar que a crônica — tal como praticamos no Brasil — já nos deu páginas sensacionais e escritores notáveis. Desde José de Alencar, Machado de Assis, João do Rio, até Sabino, Paulo Mendes Campos, Vinícius, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio Maria e o insuperável Rubem Braga, encontramos uma biblioteca feita de textos deliciosos, de escritos refinados, de pensamentos estimulantes, registros de toda uma cultura brasileira feita de cotidiano e poesia.

Ou seja, quem não gosta de crônica, bom sujeito não é"


Serviço:

O escritor Roberto Gomes participa do segundo encontro do projeto “Um Escritor na Biblioteca” em 2013, no dia 8 de maio, a partir das 19h, na Biblioteca Pública do Paraná. Ele escreve crônicas a cada 15 dias no Caderno G do jornal Gazeta do Povo.

6 de maio de 2013

Crítica do filme "Somos Tão Jovens"

Este fim de semana fui assistir ao filme "Somos Tão Jovens", que conta a primeira fase da história musical do excepcional Renato Russo, cuja arte fez parte da minha formação. Só que, ao sair do cinema, eu estava tão indignado, mas tão indignado que decidi que escreveria sobre a pífia obra cinematográfica. Contudo, achei uma crítica já escrita e que contém tudo o que eu gostaria de publicar. Portanto, já que o trabalho já foi feito e devemos dar os méritos a quem de direito, vou indicar o texto da Larissa Padron, no site Cinema de Buteco, que vale mais a pena.

Eis um pedacinho do que a Larissa comenta:


"[...] Mas o principal pecado de Fontoura (diretor do filme) é conhecer a adolescência apenas por episódios de Malhação, aparentemente. A personalidade notoriamente rebelde do músico parece sempre banal no longa, culminando em uma discussão agressiva com a família sem motivo justificável algum. Os pais e os amigos do protagonista conversam como quem vai para o Gigabyte tomar um suco, a revolta contra a ditadura militar, que inspirou a maioria das letras das bandas da época, é pífia, e a droga mais pesada que vemos é a maconha.

Tudo isso parece aceitável até aparição de André Pretorius, integrante inicial do Aborto Elétrico, retratado como uma versão ainda mais caricata, e involuntariamente cômica, do Supla. Claro que a tentativa de mostrar Renato como um “adolescente comum”, que faz merda, é válida, só é uma pena que tenha sido realizada por alguém que não parece ter muito conhecimento sobre esta fase da vida. [...]"

Leia o artigo na íntegra AQUI

3 de maio de 2013

Manicure - profissão perigo



por Beto Pacheco


Minha namorada sempre vai à mesma manicure. Afinal, as mulheres bem sabem que manicure tem de ser de confiança e não dá pra ficar escolhendo qualquer uma. É como, para o homem, aquele garçom ombro-amigo, que sabe toda a história da sua vida, suas frustrações, desamores, chefes complicados (não o meu, evidente, estou generalizando), decepções futebolísticas, até o saldo do seu cartão de crédito, etc, etc, etc.

O problema é que desta vez, ao voltar do salão, ela chegou resmungando e eu perguntei:

 O que aconteceu? A manicure-confidente não fez o serviço como de costume?
 Quem me atendeu desta vez não foi a Ketlen.

Ok, pausa para reflexão...

Ketlen?! É Dolly ou Coca-Cola Zero?

Voltando, ela estava resmungando porque a Ketlen (deveria haver curso pré-natal obrigatório para escolha de nomes) não estava trabalhando no dia e quem a atendeu foi a prima da Ketlen. E a moça, infelizmente, acabou não fazendo o trabalho com o mesmo cuidado que a Ketlen – vou repetir bastante o nome pra ver se me acostumo – o que deixou minha namorada chateada. Perfeitamente compreensível.

Aí eu perguntei para ela:

 Mas onde é que a Ketlen estava? Foi mandada embora?
 Não, ela está fazendo um curso...
 Ah, bom! Curso de quê?
 Curso de sobrevivência na selva.

Pois é...

E eu achando que o nome da menina é que era curioso. Fiquei a tarde toda, todinha mesmo, tentando achar uma explicação, mas está difícil. Será um curso ministrado pelo McGyver? Onde ela aprende a caçar, rastrear, explorar – e sobreviver, evidentemente – usando esmalte, acetona, alicate de cutícula... hein? Será? Na selva.

Ajudem-me, por favor! Esta dúvida está me matando.

Quiçá abriram uma vaga para manicures de bordo... Pode ser, não é mesmo? Afinal, funcionários aeronáuticos sempre precisam desses cursos, pois vai que a condução despenca na Serra do Mar. Manicures e barbeiros de bordo. Hein, hein? Toda essa política de inovação em curso nas empresas contemporâneas e tal. Deve ser, né?

Curso de sobrevivência... Manicure...

Enfim, moral da história: para subir na carreira não basta mais fazer pós, MBA, mestrado, doutorado, curso de idiomas ou comprar um eBook de algum guru da autoajuda. O único caminho é a especialização radical, galera... No nome e na selva.

***
De trilha sonora, segue a excepcional dica do meu amigo Marlos Soares:

Chilique Chique
Artista: Rhaissa Bittar
Música: Daniel Galli
Participação: Daniel Galli
Produção: No Estúdio do Troy & WTF?!filmes
Video: Carol Winter
Edição de Áudio: Chico Santarosa

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